Cesta básica tem um novo vilão

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Data: 12/03/2010 07:00:35 [1038 Palavras]
Publicação: Tribuna do Interior (Brasil)
Autor: Tribuna do Interior
Assunto: Redação


Problemas na safra internacional de cana-de-açúcar e o excesso de chuva no Brasil fizeram com que, nos últimos meses, o preço do açúcar Cristal (pacote 5 kg) em Campo Mourão passasse de R$ 7,49, em dezembro, para R$ 9,49, em fevereiro. Com essa elevação, muitas pessoas estão mudando os hábitos e prometendo uma dieta mais saudável, com menos doce.

            Esse é o caso de Irene Borges do Nascimento, de 51 anos. A dona de casa é quem costuma fazer as compras para toda a família e confirma que a cada vez que olha, o produto teve um acréscimo. "Nossa, isso aqui subiu e como. Antes a gente pagava pouco mais de quatro reais, agora, está mais de nove, quase dez reais um saco de cinco quilos de açúcar. Lá em casa eu já deixei de fazer doce. A família reclama, estavam acostumados com um docinho no final de semana, mas agora tem de esperar baixar", comenta Irene.

            Mas os economistas alertam que pelo menos até setembro, o produto ainda deve ficar um pouco mais caro. Segundo eles, existem dois vilões para essa alta exagerada. Um deles é a quebra da produção na Índia, um dos maiores produtores de açúcar, que este ano obteve 7,5 milhões de toneladas a menos. "Mas eles precisam consumir, a Índia é um país altamente consumidor. Então, quando falta o açúcar lá, tem de se voltar ao mercado internacional. O Brasil é um país que tem esse produto, e passa então a exportar, que é mais vantajoso. O lucro na venda para o mercado externo em comparação com o interno pode chegar a 36%", explicou o Coordenador do Curso de Economia da Faculdade Estadual de Ciências e Letras (Fecilcam), professor Paulo Roberto Santana Borges.

            O segundo vilão da alta, além da destinação maior para outros países, foram as chuvas abundantes, que também contribuíram para esses preços. "As chuvas foram pesadas no ano passado. Em junho, atrapalharam a moagem da cana para o açúcar, em setembro atrapalhou a moagem da cana para o álcool. Isso fez com que ficasse mais escasso o produto internamente e com que ficasse mais caro também. Com menor oferta e a procura se mantendo estável, os preços sobem.", alerta Borges.

           

Expectativa de queda

            As perspectivas para os próximos meses não são muito animadoras. A queda continuará dependendo do mercado externo. Segundo o economista, se a Índia regularizar a situação, os preços devem voltar aos patamares normais. Mas só no final do ano. "Até setembro nada deve mudar, mesmo que tudo dê certo, vai de 7 a 8 meses. Eles podem não subir tanto, mas uma leve alta é esperada", afirma. 

            Enquanto o preço não cai, a solução encontrada pelos consumidores é ficarem atentos às promoções. O taxista, Altino Ferreira de Almeida, de 46 anos, não foge a essa regra. "Eu estava aqui olhando os preços. Está muito alto, subiu demais, desse jeito não dá para levar, a gente tem de esperar baixar e aproveitar as ofertas. Semana passada eu encontrei um preço bom, então levei vários pacotes, tem de ser assim", explica Almeida.

            Apesar do preço salgado, há quem não consiga ficar sem o produto, como a dona de casa, Juvelina Kevedo Moreira, de 61 anos. "A gente percebe que está bem mais alto, mas não tem como ficar sem. Como vai ficar o cafezinho da manhã sem açúcar para adoçar? Se eu soubesse que iria cair até poderia esperar, mas nunca se sabe. Então com preço alto ou não, compro. Eu até consigo ficar sem, mas meu marido adora um doce caseiro", diz Moreira.

            Segundo o professor de economia, com os preços atrativos lá fora, quem pagou mais caro foi o consumidor. "De janeiro de 2009 até agora, os preços chegaram a subir 80%. Esse é um produto que todas as classes sociais consomem, ele vai influenciar também nos preços dos derivados, como bolos e sorvetes", lembra Borges. Se já é difícil para quem utiliza o açúcar apenas em casa, a situação se complica quando ele é matéria-prima para o trabalho. A confeiteira, Marta Cruz de Oliveira, de 55 anos, sabe bem o que é isso. Produzindo doces e tortas há mais de 30 anos, ela não esconde que a alta atrapalha a produção. "Subiu exageradamente o açúcar, a gente até demorou um pouco para perceber, mas deve fazer uns seis meses que esse preço só sobe. O engraçado é que esses dias ouvi falar em alta de 12%, só se for lá em São Paulo, porque aqui parece que foi de 100%. Nessas horas, quem trabalha com isso é que sofre", coloca Oliveira.

            Segundo Josué Matias de Oliveira, gestor de compras de um supermercado da cidade só em janeiro, o preço passou de R$ 7,49 para R$ 8,78 no meio do mês, e para R$ 9,49 no dia 31, preço que se mantém até o momento.

Preço atrativo desvia produção de álcool

            Com a facilidade e o preço vantajoso na venda para o mercado externo, grande parte da produção de cana foi destinada para a produção de açúcar. Elevando os preços do álcool. "O Brasil, aproveitando os preços internacionais, que são muito mais significativos que o mercado interno, destina quase que a totalidade da produção para a fabricação de açúcar, ficando uma parcela muito pequena para a produção de Álcool, aí que surgiu o outro problema que foi a elevação no preço do álcool combustível", diz.

            Enquanto os consumidores ficam sem alternativa quanto ao preço do açúcar, na questão do álcool combustível há uma saída. Hoje, grande parte dos automóveis que utilizam o combustível são Flex. Com esses veículos, a pessoa pode abastecer com álcool ou gasolina. "Quando sobem esses preços, de dezembro a janeiro, por exemplo, a alta foi de mais de 14%, o consumidor faz as contas e quando o valor chega a 70% da gasolina, acaba trocando. Deixa de utilizar o álcool, e passa a abastecer com gasolina. Uma análise feita no país mostrou que 30% dos condutores trocaram de combustível. Além disso, o governo forçou a queda dos preços", relata o professor. A diminuição do percentual de álcool adicionado na gasolina ajudou na queda. (AC)

 

Por Ana Carla Poliseli, da Redação