A incansável luta de uma grande mulher

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Data: 08/03/2010 06:03:22 [973 Palavras]
Publicação: Tribuna do Interior (Brasil)
Autor: Tribuna do Interior
Assunto: Redação


O sobrenome é bastante comum, Silva. No entanto o que enfrentou durante a vida é incomum a maioria das pessoas. Aos 37 anos de idade, Jasmelina Rosa da Silva ainda se emociona com as recordações de um passado recente. Natural de Campo Mourão, fugiu de casa ainda criança, aos 13 anos, para ficar ao lado do companheiro, o qual jurou amor eterno. Mal sabia ela que o álcool transformaria aquela paixão em ódio.



            Na época, Jane, como é conhecida, não tinha profissão, experiência de vida e muito menos corpo de mulher. Era apenas uma garota franzina, envolvida nas juras de um falso amor. Foi morar em um sítio com o marido e logo engravidou. Sem dinheiro, o casal voltou a cidade e foi acolhido pela sua mãe. Desde cedo, o álcool ingerido pelo companheiro já a fazia refém do próprio medo. Apanhava calada.

            Foi então que decidiu deixar a casa da mãe para morar em uma tapera na favela São Francisco de Assis. Sem banheiro, energia elétrica e água encanada, a vida parecia irreal, como nos filmes de Almodóvar. As paredes eram pouco melhores que um compensado. Enormes frestas permitiam a entrada de animais da rua. A realidade começava a ser mostrada. Com a necessidade de grana, Jane foi obrigada a trabalhar. Como bóia fria escondia a barriga para não perder a vaga. Aos 14 anos derrubava cana. Trabalhou até os oito meses de gravidez com a barriga enfaixada para escondê-la. Tudo pela necessidade.

            O marido também ajudava nas despesas. Mas grande parte da renda se perdia nas esquinas próximas a favela, nos bares noturnos onde falava mais alto o cheiro tóxico do álcool. A cena quase sempre era a mesma: violência. A vida na favela durou quatro anos. Ali nasceram seus dois filhos. "Passava fome mas não dizia aos meus pais. Tinha muita vergonha da minha situação", revelou. Com água nos olhos e a voz trêmula, Jane conta que fazia milagre. Uma lata de leite ninho durava até oito dias. "Era o que tinha para meu filho comer".  

            Foi então que o destino levou o casal para Ribeirão Preto, em São Paulo. Com a promessa de um bom emprego em uma madeireira, lá foram os quatro em busca da falsa felicidade. Foi aí que o inferno teve início. Jane lembra que saiu da favela para, desta vez, encarar um cortiço. Trata-se de um aglomerado de miseráveis, em condições desumanas, onde vivem espremidos utilizando o mesmo banheiro, compartilhando das mesmas desgraças e doenças morais. "Aquilo é pior que o inferno", disse.

            No cortiço ela foi apresentada ao que há de pior na espécie humana. Vizinhos viciados em drogas, traficantes, assassinos e bandidos. Até um cadáver encontrou na porta da casa. E não podia fazer nada. Engolia calada a convivência de desgraçados morais ao lado dos dois filhos indefesos. Se isso não fosse o bastante, a agressividade do marido passou a aumentar dia a dia. Com as noitadas movidas a cachaça, ele entrava em seu quarto, quebrava o que encontrava e a espancava. Até parece que pior não podia ficar. Mas ficou. Além dela, o companheiro passou a agredir violentamente os próprios filhos, de dois e três anos. Certa vez, o maior perdeu os dentes da boca graças a um soco desferido pelo agressor.

            Ao mesmo tempo em que vivenciava a situação, Jane tinha um misto de sentimentos. Dor, raiva, pena, ódio, vingança. Uma noite, cansada de apanhar com os filhos, decidiu fugir. Ao ver o marido chegar bêbado mais uma vez, pegou os meninos, pulou uma cerca alta - tendo que jogar um deles para conseguir escapar - e sumiu. Sem conhecer ninguém naquela cidade, acabou se refugiando em um cemitério, onde dormiu com os filhos encostada em um túmulo. 

            Mais uma vez, sem ter ajuda, foi obrigada a voltar ao cortiço, nos braços do agressor. A tortura recomeçou. Tudo novamente até uma tentativa de estrangulamento. O ano era 1998. Ao ver a morte de perto, Jane tirou todas as forças que possuía e se lançou de volta a Campo Mourão. Na bagagem, apenas os filhos e a roupa do corpo. Dias depois, o ex-marido a procurou, em vão. Sabendo das agruras do sujeito, a família de Jane a protegeu e deu um basta na aproximação dos dois. Aquela foi a última vez que ela e os filhos viram o ex-companheiro, o ex-pai, o agressor.

            Jane então foi "adotada" mais uma vez pela mãe, figura importantíssima em sua vida, ou melhor, a pessoa que sempre estendeu a mão. Mesmo no aconchego do lar, próxima a família, ela passou outro tormento. Desta vez os filhos passaram a ser agredidos pelo próprio tio, um ex-usuário de drogas. De um novo relacionamento, ficou grávida pela terceira vez. Com vergonha da mãe, decidiu alugar uma casa e ser dona do próprio nariz. E assim o fez.

            Mãe de três filhos, Jane conheceu o seu atual marido meses depois, com quem vive até hoje. Com o novo amor nasceu o quarto filho. Juntos, o casal trabalha e vem convivendo em harmonia, diferente de anos anteriores, quando ela desconhecia a felicidade. Fruto da incansável jornada de trabalho, eles já tem casa própria, um carrinho e até uma moto. Mais do que isso. Têm o amor pelos filhos.

            Jasmelina hoje encontrou a sua verdadeira profissão. É a líder da cozinha de um renomado buffet de Campo Mourão e comanda uma equipe de seis pessoas. Tem no trabalho a satisfação do dever cumprido e, quando retorna a sua casa, tem o valor reconhecido pelo marido. Olhando para trás, Jane diz não esquecer de nada. Aprendeu com o sofrimento a ganhar auto estima. "Passei a ter atitudes que antes não sabia que podia ter. Sou respeitada no trabalho e me imponho em casa. Hoje sou mais eu".    

Por Dilmércio Daleffe, da Redação

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